quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Para meu mais novo velho amigo

Quando acordei eu já sabia, seria um dia difícil. Depois de muita resistência decidi levantar e encarar o mundo lá fora, mas não havia ânimo em mim. Não senti fome ou qualquer outra sensação que não seja de imensa tristeza. O mundo lá fora parecia tão cinza e sem graça que gostaria de ficar ali, no meu mundinho particular, onde invento cores pra me alegrar.
Mas nesse dia, nada, nada tinha cor. 
Só queria que esse dia passasse logo. Mas os minutos tinham longas pernas.
Já não era possível disfarçar tão bem quanto antes. Com um sorriso no rosto, eu dizia aos que me perguntavam como estou: - Estou uma merda. Mas nada podiam fazer, acho que até meus vários personagens desistiram de mim. Me abandonei como qualquer outro faria.
Decidi caminhar um pouco sozinha, era final de tarde. Não só escurecia o dia como eu também escurecia.
Pessoas passavam por mim, casais abraçados e amigos conversando. Senti saudade. Saudade de conversar com meus amigos e sentir que a vida é leve. Saudade de receber um abraço. Saudade do que ainda não vivi. Saudade de um dia ser par.
Segui em frente. 
No final do caminho havia um banco com duas pessoas. Uma amiga estava sentada ao lado de um rapaz. Ela me chamou, e perguntou sem rodeios o motivo de eu estar assim, de cabeça baixa e olhar triste. Eu respondi: - A vida. Então me apresentou seu novo amigo e disse que nos daríamos muito bem. O ônibus que ela esperava chegou, e ela partiu. Mas antes disse: - Conversa com ele. Vocês vão gostar muito um do outro.
Ela parecia ter adivinhado que eu precisava conversar. Precisava só de um amigo, de algum novo motivo pra me alegrar.
Perguntei a ele para onde estava indo. Ele me disse que só estava fazendo companhia a ela e que adoraria me fazer companhia também. Eu disse que não queria incomodar mas, que não tinha planos nenhum pra as próximas horas. Ele também não.
Então conversamos. Não me recordo quantas horas passaram. Ele ainda era estranho pra mim, mas decidi revelar a ele os meus motivos para estar triste. Não havia nada mais a perder. Ele sem nem me conhecer, me disse tudo que eu precisava ouvir. Na verdade me disse além, me fez perceber que ainda existe uma pessoa incrível dentro de mim. Ali naquele banco nós conversávamos sobre cachorros, crianças, planos acadêmicos, música, filmes e amores. Ele parecia um velho amigo. Meu mais novo velho amigo.
Os minutos que antes estavam pesados, passaram rápido. Eu gostaria de parar no tempo, ali, naquele banco, naquela noite, naquele sorriso aconchegante do meu novo amigo e confidente. Ele foi gentil como eu não lembrava que alguém poderia ser. Me acompanhou até onde conseguia - por preocupação, disse ele. Preocupação? Talvez ele não tenha percebido, mas senti vontade de chorar. Chorei por dentro como cada palavra e gesto de carinho que ele me ofereceu.
Ele foi capaz ouvir com paciência cada medo e angústia que eu revelava. Enquanto até eu mesma me perdia nas palavras, ele me achava. Prestou atenção em cada detalhe, e depois de tudo me vez rir por nada. Sem motivos nós rimos. E ele me fez ver que eu só precisava ver com outros olhos. E eu fui capaz de ver com os olhos dele a minha vida. E me senti alegre novamente, como a muito não me sinto.
Aquele dia poderia ter sido o pior dia da minha vida. O dia que eu não gostaria de ter levantado da cama. Mas aquele rapaz, de barbas compridas e olhos negros, me fez voltar a sonhar. Cheguei em casa radiante. 
Deitei na cama e só tive um pedido a fazer: hoje eu não quero dormir só. 
Quero sonhar com ele. 
Sonhar com tudo que ainda não disse e com o que eu gostaria ouvir.
Acordei pela manhã com um sorriso no rosto. Sim! Eu sonhei com ele. Brincávamos em algum parque. Riamos e conversávamos como dois velhos amigos. Não sei se o verei novamente. Será que ele realmente existiu, ou mais uma vez eu inventei? 
Mas gostaria de dizer que ele pintou de todas as cores as paredes cinzas do meu mundo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Só pra você saber

Hoje eu tentei dormir cedo pra sonhar com qualquer coisa diferente da minha realidade, mas não consegui. Senti tua falta. Pensei em te ligar, mas desisti. Liguei o computador e procurei teu blog. Li todos os textos que ainda não havia lido. Foi uma maneira de te encontrar sem te incomodar. Você faz isso sempre, mesmo quando eu me afasto.
Você deve ter se cansado de me perdoar. Mas é que eu não sei ser diferente, me escondo, me isolo e te abandono. Talvez seja egoísmo, na verdade eu não sei o que é.
Fico pensando em correr pra te falar das minhas tristezas. Mas eu desisto. Talvez você precise de ajuda, mas eu não consigo sair do lugar. Gostaria de te falar que tem me faltado a coragem necessária pra encarar os dias difíceis.
Nada tem feito sentido. E você sabe. Você sempre sabe o que se passa comigo. Você me entende melhor do que eu mesma. Talvez porque sua dor seja tão parecida com a minha.

Você me cobra qualquer gesto de carinho. Juro que tento, mas eu não sei muito bem o que fazer, isso não é tão natural pra mim. Não sei como agir.
Vocês faz coisas por mim que jamais alguém foi capaz. Gosto das nossas conversas informais e até mesmo as broncas. Só você é capaz de me mostrar um caminho, mesmo quando eu não consigo enxergar mais nada. Você é capaz de ver beleza na minha tristeza.
Você é o ser humano mais lindo que eu conheci. E as vezes acho até que vivi até aqui pra te conhecer. Sem você o mundo seria muito mais pesado.
Nunca imaginei que alguém poderia lutar por mim como você fez. Você me ajudou a crescer. Me incentiva e se alegra com cada conquista minha. Gostaria de te dar todo o amor do mundo, de lutar pelos teus sonhos. De enxugar tuas lágrimas como você enxugou as minhas.
Você me desafiou e desafia a amar. Não sei bem como fazer isso ainda. Mas por você eu to tentando.


Você é como o vento que norteia o meu caminho. 
Todos os textos que escrevi, os formais e informais, foram a partir de uma conversa com você na minha cabeça. Porque é você que estava sempre lá, conversando comigo nos meus pensamentos. Por diversas vezes eu renunciei estar ao seu lado, para que pessoas melhores e mais alegres possam te fazer feliz. Você mais do que ninguém merece ser feliz. Mas eu estive lá, em todos os momentos.
Não fui madrinha do seu casamento, mas estive por trás do detalhes, vendo se tudo estava do jeito que você queria. Não estive nas fotos principais, mas estava de longe observando se não faltava mais ninguém. Sei que você gostaria de olhar para aquelas fotos e ver que todos estavam lá. Não estive com você em muitos momentos, mas eu estava lá nos pequenos detalhes do que planejei pra você.
Leio teus textos nos jornais, vejo teu crescimento. Estou aqui pra te dar ideias quando as tuas faltar. Estou lá nas indicações de trabalhos, nos incentivos e elogios.
Eu aqui no meu canto, lendo teus textos e você aí lendo os meus.
Chorei ao ler teus pensamentos, e decidi escrever esse texto pra te explicar alguma coisa, qualquer coisa. Mas você é incrível, e como sempre é você quem me liga. Me ligou no momento em que eu gostaria de ouvir tua voz. Obrigada por isso. 
Só gostaria de te dizer que tua amizade foi o um dos melhores motivos que encontrei pra existir.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sábado

Quase todos os seus sábados são solitários
É como se ela os reservasse
Para ser compartilhado com alguém
Assiste um filme ou lê um livro
Esperando uma resposta, um sinal
Alguma coisa que revele que seu coração ainda está vivo
Quando chega a noite ela se arruma
Vai ao grupo de amantes de cinema
Senta distante de todos
Fica atenta aos que chegam
Revelando uma ansiedade contida
Mas sem admitir publicamente
Ela espera por alguém
Alguém que nunca chega
Mas se chegasse…
Sentaria ao seu lado, e diria:
- Eu sabia que iria te encontrar aqui
Mas o filme começa e a ansiedade vai diminuindo
Junto com a esperança de ser surpreendida
O filme termina
A iluminação revela os rostos familiares
Todos a conhecem, ela está sempre lá
Afinal os sábados são dos namorados
Ou dos solteiros enlouquecidos
E como ela não pertence a nenhum desses mundos
Prefere ficar ali
No fundo escuro de uma sala de cinema
Em que a única surpresa possível
São as emoções de cenas ficcionadas

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A cidade cinza da menina colorida

H.R.S Produções


Às vezes parece que existe uma cidade dentro de mim

Uma cidade que já foi povoada de gente, casas e ruas
Hoje é cheia de fantasmas e recordações
Mas ainda está em funcionamento
Ainda consigo olhar para rua onde morei
Ainda vejo as crianças brincando de pipa, de bola
Ainda vejo os cachorros suicidas na esquina
Na espera que carros apressados passem
E consumam o plano final desses pobres vagabundos
De corações nobres que, cansaram de sofrer
Ainda vejo a menina de vestido colorido
Saindo de casa com seus livros
Era a casa mais bonita da rua, com o muro verde de plantas
Ela dá um beijo de despedida no cachorro,
Passa pelos meninos distraídos e sorri
Ela sempre sorri
Porque tudo lhe encanta

A cidade agora está cinza
Os cachorros desistiram dos planos suicidas
Condenaram-se, sem julgamento formal, a sobreviver
O muro verde de plantas morreu
As crianças pararam de brincar
E a menina dos livros desapareceu
A cidade agora está vazia
Não têm mais a menina que pintava as ruas
Tenho esperanças que ela volte a povoar esse lugar novamente
Talvez ela esteja se aventurando por alguma literatura encantada
Às vezes me desespero, pego todos os livros que posso e abro
Procuro por ela
Quem sabe saia de alguma página?

Sinto falta da menina que aqui habitava
Sem ela sou uma cidade vazia ainda que em funcionamento
Só não funciona mais o coração
Talvez ela tenha se mudado
Hoje sou uma cidade cinza e vazia
Estou entregue a corrupção dos que tentam me dominar
Mas, ainda sou a cidade dos cachorros suicidas
Dos meninos que brincam na rua
Dos muros verdes e dos livros
Ainda sou a cidade cinza da menina colorida

Vazamento de palavras

Imagem de Nina Eick
Sinto que estou vazando
Não só pelas lágrimas que escorregam dos meus olhos
Ou pelo sangue que muda de percurso nas avenidas das minhas veias
Estou vazando pelas palavras
Tendo hemorragia de pensamentos
Só consigo estancar quando encontro o papel
Porque é o lugar que dá forma a esse vazamento
Vou construindo novas curvas
Novas veias para meu sangue escorrer livre
Não, essas palavras não foram escritas com tinta azul
Você não vê que as letras são vermelhas?
É o melhor de mim
Ou pelo menos o que restou
Estou preenchendo esse papel com o sangue que escorre da minha alma
Estou vazando
Estou partindo de mim
Migrando novamente para algum lugar desconhecido da minha mente
Algum novo mundo
Onde eu possa encontrar o desconhecido e criar novas possibilidades
Um lugar onde eu possa nascer novamente
Porque neste aqui eu já morri
 



Esperar


Tudo em mim parece morto
Menos a tristeza que me impulsiona a escrever
Tenho medo de não pertencer a esse lugar
Tenho medo de não pertencer a lugar algum
Meu coração está vazio
Saio para encontrar algum sentido fora de mim
Mas volto ferida e sangrando
Gostaria de parar de esperar
Eu não sei o que ou quem espero
Mas eu espero
Caminho e olho pra trás, na esperança que ele venha
Corra até onde estou, toque meus ombros e continue ao meu lado
Essa espera tem me paralisado
Só sei esperar
Esperar que o tempo passe e com ele a dor
Desconfio que algumas coisas nunca passam
Fico ansiosa por um futuro que talvez não seja meu
Minha mãe me chama pra jantar
Meu cachorro me chama pra brincar
Mas eu não tenho fome e nem ânimo
Fico aqui, sozinha com os pedaços que sobram de mim
Essa tristeza que habita em mim me povoa
Fico aqui, esperando alguma coisa
Qualquer coisa que faça sentido nessa minha existência sem sentido
Não sei até quando vou esperar
Temo que minha alma morra antes do meu corpo

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Tua alma nua

Eu que já me perdi tantas vezes e morri outras mais. Fico aqui, no meu canto, procurando o descanso de mim na confusão dos outros. Procurando algum sentido nisso tudo, procurando não mais procurar por nada.
Observei ali tantas almas sem vida. Tantas vidas sem alma. E no meio dessa minha insana busca de sair de mim para viajar nos outros, encontrei o seu olhar.
Um olhar distante e meio perdido. Procurando um lugar para sentar e conversar. Um lugar para talvez ficar e montar abrigo. Enquanto todos preferiam se perder e não mais se achar.
Um olhar meio cansado, mas que ainda assim sorri, para não ser revelado.
E sorrindo vai tentando contentar-se com as pequenas frações de felicidade.
Então, quando no meio da noite você pediu silêncio para revelar sua dor. Eu me calei de pensamentos e silencie minhas angústias para te ouvir.
Quando a canção começou e seu coração gritou, fechei os olhos e sai de mim. Impossível explicar o que senti ali, porque eu não estava ali. Estive em algum lugar distante de todos mas perto de mim.
Fechei os olhos e te encontrei nesse lugar.
Você estava sentado no canto escuro de um quarto. Chorava como uma criança que se machucou. O sangue escorrendo pelo chão. A ferida era realmente profunda. Então sentei ao seu lado. Você me disse que gostaria de pedir um presente para o destino, somente um, - que o tempo passe.
Coloquei a mão onde sangrava e te disse que mesmo sendo tão intensa a dor, ela vai amenizar e a ferida vai cicatrizar.
Gostaria de ter lhe falado que essa dor te fez brilhar no escuro. Que luzes irradiavam pelo seu corpo inteiro enquanto você estava de olhos fechados. 
Sua dor é linda, porque é você sem máscaras. É sua alma despida no espelho, onde você se vê nu e sozinho.
Gostaria de ter lhe dito que essa dor, que muitos sentem e poucos vivem, vai nos mostrar com dureza a beleza de se encontrar com nosso lado mais humano. 
E o seu lado humano é iluminado.
A música acabou. 
Eu abri os olhos e infelizmente voltei para o mesmo lugar de antes.  
Parti sem te dizer o que ficou guardado em mim.
Mas espero que um dia alguém possa ver e revelar a você o quanto sua alma irradia beleza na crueza de existir.