sexta-feira, 1 de maio de 2015

Tua alma nua

Eu que já me perdi tantas vezes e morri outras mais. Fico aqui, no meu canto, procurando o descanso de mim na confusão dos outros. Procurando algum sentido nisso tudo, procurando não mais procurar por nada.
Observei ali tantas almas sem vida. Tantas vidas sem alma. E no meio dessa minha insana busca de sair de mim para viajar nos outros, encontrei o seu olhar.
Um olhar distante e meio perdido. Procurando um lugar para sentar e conversar. Um lugar para talvez ficar e montar abrigo. Enquanto todos preferiam se perder e não mais se achar.
Um olhar meio cansado, mas que ainda assim sorri, para não ser revelado.
E sorrindo vai tentando contentar-se com as pequenas frações de felicidade.
Então, quando no meio da noite você pediu silêncio para revelar sua dor. Eu me calei de pensamentos e silencie minhas angústias para te ouvir.
Quando a canção começou e seu coração gritou, fechei os olhos e sai de mim. Impossível explicar o que senti ali, porque eu não estava ali. Estive em algum lugar distante de todos mas perto de mim.
Fechei os olhos e te encontrei nesse lugar.
Você estava sentado no canto escuro de um quarto. Chorava como uma criança que se machucou. O sangue escorrendo pelo chão. A ferida era realmente profunda. Então sentei ao seu lado. Você me disse que gostaria de pedir um presente para o destino, somente um, - que o tempo passe.
Coloquei a mão onde sangrava e te disse que mesmo sendo tão intensa a dor, ela vai amenizar e a ferida vai cicatrizar.
Gostaria de ter lhe falado que essa dor te fez brilhar no escuro. Que luzes irradiavam pelo seu corpo inteiro enquanto você estava de olhos fechados. 
Sua dor é linda, porque é você sem máscaras. É sua alma despida no espelho, onde você se vê nu e sozinho.
Gostaria de ter lhe dito que essa dor, que muitos sentem e poucos vivem, vai nos mostrar com dureza a beleza de se encontrar com nosso lado mais humano. 
E o seu lado humano é iluminado.
A música acabou. 
Eu abri os olhos e infelizmente voltei para o mesmo lugar de antes.  
Parti sem te dizer o que ficou guardado em mim.
Mas espero que um dia alguém possa ver e revelar a você o quanto sua alma irradia beleza na crueza de existir.


domingo, 26 de abril de 2015

Estela

Decidiu caminhar...
Pelo caminho encontrou algumas pessoas
Que lhe perguntaram se estava bem
Ela sabia que era a última chance de pedir ajuda
Mas acabou dizendo que sim, estava bem
Eles acreditaram, como todos
Ninguém nunca foi capaz de olhar no fundo de seus olhos
E perceber a tristeza instalada neles
Porque seu sorriso sempre tão gentil disfarçava bem
Então continuou o caminho
Já não tinha mais expectativas nem planos
O seu lado alegre sempre em duelo com o lado triste e sombrio
Nesta noite encontrou um equilíbrio
Parou de caminhar, chegou onde queria
Já podia sentir alívio
Agora definitivamente podia viajar pelo espaço
Como nos sonhos de infância
Visitando planetas e constelações
Quem viu sua transformação não podia acreditar
Mas Estela agora era a estrela mais brilhante do céu
Decidiu que lá de cima iria guiar os corações angustiados
Decidiu iluminar o caminho daqueles que como ela
Nunca encontraram conforto para  a dor de existir
Ela sempre acreditou na beleza dos tristes e solitários
Estela os guiava sempre para aquele caminho
Onde quem chegava no final podia ver no céu uma estrela
Era Estela, com seu sorriso gentil 
Brilhando para acalmar a dor dos que passavam
Dizendo a eles que não estão sozinhos 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Louco diferente

Não era um louco normal
Daqueles que são comuns
Era um louco diferente 
Se importava com a dor da gente
Diferente dos loucos normais
Porque escolheu ser assim 
E por querer ser um louco diferente enlouqueceu 
Sozinho em sua mente 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Sim, ela existiu!

Haviam vários passos marcados na areia
Mas nenhum era dela
Não haviam marcas por onde passou
Porque ela era uma não-pessoa
Existiu sim, mas apenas para alguns
Para aqueles que não tinham lentes nos olhos
Para os que acreditavam no mundo além do mundo
Foi embora muito rápido
Não deu tempo de lhe dizer adeus
Mas deixou saudade
Por onde passou levou o amor que nem ela sabia que tinha
Mas que sabia que o mundo precisava
Então, deixou de lado a dor para distribuir amor
Mas ela perdeu a medida
Doou tudo que tinha, até mesmo a própria vida
E assim se foi
Levada como uma pena branca embalada pelo vento

domingo, 22 de março de 2015

Gaiola Aberta

Lembro até hoje de várias histórias da minha infância, mas essa eu guardei com um carinho especial. 
Acho que tinha 3 ou 4 anos quando ganhei do meu pai um canário amarelo dentro de uma gaiola. Minha mãe dizia que eu o amava tanto que vivia ao seu lado cantando. Aprendi a cuidar dele e a lhe dar carinho, mas percebi que só meu amor não era o suficiente. Pois algumas vezes ele ficava triste e não cantava. Eu sentia sua tristeza mas não sabia de onde vinha.
Então meu pai me disse que ele era um pássaro e que amava voar, amava a liberdade, e eu precisava abrir a gaiola e deixá-lo ir. Mas se ele também me amasse voltaria, porque saberia que ali era seu lugar, sua casa.
Então, mesmo não querendo eu permiti que meu pai abrisse aquela gaiola. 
Ao vê-la aberta ele saiu timidamente e voou.
Um dia inteiro se passou, e eu esperei ali. Igual a gaiola vazia estava meu coração também vazio. No dia seguinte ele também não veio, então passou uma semana e depois de tanta espera ele finalmente apareceu, cansado e sem rabo. 
Eu ainda era criança para entender a raridade com que essas coisas acontecem. 
Mas lembro do sentimento de alegria que confortava meu, ainda pequeno, coração.
E então por muito tempo foi assim, sua gaiola sempre aberta, e ele tinha a liberdade de ir e voltar. Saía todos os dias para passear, mas durante a noite voltava para casa.
Meus pais diziam que os vizinhos ficavam impressionados com a inteligência do meu melhor amigo. Mas na minha ingenuidade eu achava que aquilo era normal, que deveria ser assim o amor, livre. 
E assim foi a minha vida inteira, eu aprendi a deixar a gaiola aberta. Eu também entendi que ninguém possui ninguém a ponto de tirar a liberdade dessa pessoa. 
Um dia, aconteceu o que eu mais temia, ele não voltou. 
Os dias se passaram e ele nunca mais voltou. 
Meu pai me explicou que não era porque deixou de me amar, é que alguma coisa devia ter acontecido a ele, mas que devia estar bem em algum lugar. E então me disse que era importante lembrar somente das coisas boas, e que na vida seria assim, e eu precisava sempre seguir em frente que muita coisa boa ainda estava por vir.
E assim fui descobrindo que amar é muito difícil, mas também é muito fácil. Nem sempre somos correspondidos, mas se for recíproco não podemos deixar esse sentimento de posse roubar a liberdade de ninguém e nem matar o amor. 
Em algumas noites ainda escuto um canário cantando no meu ouvido. 
Ainda sinto meu velho amigo aqui ao meu lado, pertinho do meu coração que hoje é uma gaiola vazia.
E em outras noites acho que também sou um pássaro perdido, que ama voar e sentir-se livre, mas que também procura a porta aberta de um coração para se abrigar. 

sábado, 14 de março de 2015

Tarde de chuva

Acordei cheia de medos e receios, alguma coisa me sufocava.
Mas durante a tarde veio uma forte chuva. Fiquei olhando indecisa.
Então lembrei que, pensar demais me faria desistir.
Decidi sair na rua para tomar aquele banho de chuva.
Enquanto eu sentia cada gota tocar o meu rosto, 
eu também podia sentir-me inteira novamente.
Sem medo, sem culpa.
Senti minha alma sendo lavada.
Nem no passado, nem no futuro eu decidi estar aqui neste instante.    
Nem tristeza nem alegria, apenas paz. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

A menina dos meus olhos

Quando estou sozinha vou até o espelho e fico a procurar por ela. 
Tem uma menina escondida dentro dos meus olhos. 
Já tentei convence - lá a sair, mas não consigo e então me acostumei, afinal ela tem sido minha melhor companhia.
Às vezes brincamos de desvendar o futuro, e outras vezes de reviver o passado. 
Às vezes sua presença é assustadora, parece um fantasma em minha mente. Um fantasma com acesso a todos os segredos guardados e a todos os tesouros escondidos.
Estamos tão distantes, e ao mesmo tempo tão perto. Gostaria que ela partisse, encontrasse seu caminho, e assim eu poderia seguir o meu.
Gostaria de ajudá-la, gostaria que ela fosse uma criança normal, mas ela não é. 
Gostaria que não me visitasse mais no espelho. 
Mas não reclamo, pois tem sido bom dividir a solidão.